Toca de coelho

Alice acordou e o dia estava ensolarado. Pássaros cantavam nos arredores, o cheiro de pães frescos da padaria mais próxima entrava pela janela assim como os raios de sol e o ruído leve de risadas dos transeuntes. Tudo parecia inspirar vida aos seus olhos marejados de tanto dormir. Ela se levantou, aprumou-se e saiu de seu apartamento. Tomou café de manhã na mesma padaria cujo cheiro de pães atiçaram seu estômago mais cedo. Passeou pelo parque enquanto tomava um café. Decidiu pegar um ônibus e dar uma passada no museu. Lá, admirou as obras com o máximo de seu entendimento; dedicou-lhes mais tempo e mais sentimento do que a maioria. Aproveitou a jornada encantadora e foi almoçar num restaurante próximo. Encontrou-se com suas amigas no shopping durante a tarde. À noite, deu de cara com o objeto de sua adoração máxima. Encheu-se de vergonha e gaguejou. Ambos riram. Mas a conversa sobreviveu aos empecilhos. Trocaram telefones pela primeira vez. Um encontro futuro era possível a qualquer momento. Talvez amanhã? Preciso checar minha agenda mas te aviso amanhã. Sem problemas, conversamos amanhã, boa noite. Boa noite. Alice chegou em seu lar, desaprumou-se e foi dormir. O amanhã encantou seus sonhos. 


Alice acordou e o dia estava ensolarado. Pássaros cantavam, o cheiro de pães frescos entrava pela janela assim como os raios de sol. Transeuntes passavam, seus passos duros ecoando pela rua. A vida inspirava mais vida aos seus olhos. Ela se levantou, aprumou-se e saiu de seu apartamento. Foi para a padaria tomar café da manhã, mas eles já haviam vendido todos os pães. E o cheiro que eu senti há pouco? É o cheiro dos pães que estamos assando, mas ainda vai levar um tempo. Quanto tempo? Mais uns 20, 30 minutos, caso queira esperar. Sem problemas, eu tenho alguns minutos. Sentou em uma das mesas, ansiosa, esperando a refeição que incendiaria seu dia. 24 minutos depois os pães saíram e ela finalmente pôde tomar seu café da manhã. Quando saiu da padaria, já era muito tarde para dar uma passada na biblioteca, como quisera fazer ao acordar, então voltou ao seu apartamento, pegou suas coisas e foi trabalhar. Deu bom dia a todos os seus colegas de trabalho, sentou em sua mesa e começou a digitar linhas indecifráveis de códigos monótonos, uma linguagem anciã companheira de muitos anos de sua vida. Ao anoitecer, voltou para seu lar. Aconchegou-se na poltrona e ficou esperando o objeto de sua adoração máxima ligar. Passaram-se vinte minutos e nada aconteceu. Passaram-se mais quarenta e nada aconteceu. Duas horas. Um sufoco sem ventilação. Uma ausência cercada de abismos. Uma incompletude permanente. Nada aconteceu. Alice desaprumou-se e se deitou. Caiu no sono aos soluços suaves de um choro. 


Alice acordou e o dia estava ensolarado. Pássaros choravam, os raios de sol invadiam o quarto. Transeuntes cochichavam, alarmados, em choque. Cheiro de queimado vinha de algum lugar. Algo irritava seus olhos marejados e inchados. Correu para a janela para verificar o que havia acontecido. Fumaça. Fuligem. Cinzas onde deveria haver pães frescos. Aprumou-se, pegou as chaves do carro e saiu em direção ao trabalho. Passou em uma padaria, uma em que nunca havia entrado antes, para tomar café da manhã. Se sentiu cheia, mas não completa. Perguntou-se se alguém tinha se machucado enquanto colocava o cinto de segurança. Foi trabalhar. Deu bom dia para alguns colegas de trabalho, sentou em sua mesa e começou a digitar linhas, todas indecifráveis para quem não possuía o conhecimento daqueles códigos monótonos, daquela linguagem anciã propícia para pagar as contas. Saiu mais cedo do escritório e pensou em passar na biblioteca já que não conseguira no dia anterior. O pensamento passou, acenou, fez cócegas e partiu para o pós-mundo das ideias. Voltou para seu lar, sua fortaleza. Ainda esperava por uma ligação, contudo, ela não vinha. Sentia-se pesada, cheia de tudo, cheia de todos os nadas. Um vazio infindável e opressivo. Decidiu em ligar ela mesma. Olhou para o aparelho de telefone. O aparelho de telefone olhou para ela. Não houve ligação. Lembrou-se de fechar as janelas. Desaprumou-se e foi dormir. A ausência lhe deu abrigo durante a noite.


Alice acordou e o dia estava. Pássaros? Sim. Raios de sol? Não com a janela fechada; nada invadiria sua fortaleza enquanto pudesse resistir. Vestiu-se e foi trabalhar. Passou em outra padaria. Tomou seu café da manhã até se sentir cheia (só não satisfeita - nada a satisfaria enquanto seus sonhos queimavam em outros dias, em outras cidades). Entrou no edifício de seu escritório. Disse bom dia quando lhe disseram bom dia. Sentou em sua mesa. Monotonizou-se. Esperou chegar o horário do almoço e saiu com o carro. Parou em frente à biblioteca. Um aviso nas portas fechadas: devido a contaminação, a biblioteca ficará fechada pelas próximas semanas. Uma luz queimou em algum lugar. Voltou para o carro e dirigiu-se ao escritório. As horas passaram. Chegou em seu apartamento. Olhou para o telefone. O telefone olhou para ela. Houve uma ligação. Clara, preciso falar contigo. Clara? Não há ninguém com esse nome por aqui. Como isso é possível, quem fala é a Alice, nos vimos no domingo, somos amigas há anos, nos formamos juntas. Alice? Não conhecemos nenhuma Alice, por favor, não nos ligue novamente. Desligaram. Alice não entendeu o que havia acontecido. Ela tinha certeza que aquele era o telefone de Clara. Pensou em Bárbara e refez a mágica do telefone. Bárbara, é você? Quem fala? É a Alice. Alice, ô Alice, a Bárbara... Algum tempo passou, mas Alice não faz ideia. Suas pernas parecem gelatina. Seu coração, um incêndio gelado, um loteamento de cinzas. Desveste-se e vai dormir sabendo que precisa acordar cedo mais um dia. Vira para um lado, vira para o outro e o sono não a cobre. Quando finalmente encontra o portão para o mundo dos sonhos, já é muito tarde.


Alice acorda (se podemos chamar de "acordar" o ato de desistir de dormir) e o dia está amargo. A janela fechada, apenas sons de pessoas andando. Veste-se e vai trabalhar. Não tem estômago para café da manhã. Não tem estômago para nada. Pede ao seu chefe para sair mais cedo. Por quê? Assuntos pessoais. Passa na floricultura e depois caminha pelos caminhos de pedra do labirinto de memórias. Deposita as flores sobre um monte de terra e parte antes que as lágrimas atinjam o solo. Volta para seu apartamento, troca as roupas por algo mais confortável, mais desleixado. Olha para o telefone mais uma vez e seu estômago ruge. Não sabe o que fazer a não ser sofrer por nada poder fazer. Encara o telefone por longas horas até que a taquicardia a incomoda e a prende. Sua fortaleza? Sente-se segura? Sente-se valente, preparada? Joga uma moeda e brinca de cara ou coroa; cara eu ligo, coroa eu me desligo. Alice joga a moeda e reza, nos breves segundos que a moeda leva para atingir seu ápice de altura e voltar com a gravidade à sua mão, reza para que ela tenha energia o suficiente para ligar. Deu cara e ela sabe que o universo lhe passou uma mensagem. Pega o telefone e o número que lhe passaram dias antes e disca. Algo toca e chama. Uma chama intensa que aos poucos vai se apagando. O telefone toca e ninguém atende, a chamada não leva a lugar nenhum. Alice não se dá por vencida, por derrotada; ela tenta novamente. Chama, chama, e tudo se apaga. Alice tira a coroa que não queria e se desliga. 


alice se liga na prisão. pássaros esbravejam suas maldições. raios de sol brilham nas grades de sua lua particular. cheiros inexistem. alice roupeia-se e vai trabalhar. não toma café da manhã. sua fome só pode ser alimentada pelo telefone. mas ele não toca nunca. e ela não liga mais. volta para sua fortaleza de segurança máxima tira toda a roupa e se joga na cama. espera lágrimas porém não há mais nada. seu rosto é vácuo. um buraco negro supermassivo sugando suas entranhas na menor velocidade possível. alice se desliga


alice religa-se
o amargor saturando suas preces
incendiando seu ventre
destruindo para pavimentar caminhos vazios em seu interior 

alice retira-se de cena
chora sem lágrimas
sente-se presa a si mesma como uma maldição
não consegue mais deixar escapar um grito de socorro
uma súplica em alto mar 
uma mensagem de amor próprio

nenhum pedido foi atendido e ela fez os três que tinha direito

em sua toca de coelho
infinita como a tristeza da humanidade
alice chorou
e de suas lágrimas brotaram cinzas
que floresceram em dias iguais
dores iguais
sem jamais haver saída
caindo continuamente
sem nunca saber quando parar
ou onde vai parar

alice caía
às vezes só metade do tempo
às vezes na outra metade do tempo também

alice morreu de noite
ela nem sentiu
porque no dia seguinte
tudo estava igual

alice acordou
alice dormiu
Alice acordou
alice dormiu
alice acordou
alice dormiu

seguiu caindo metade do tempo
na outra olhava para o teto
sentindo as horas passarem
pelos calores 
dos olhares trocados que
jamais
trocou
caindo em tentações 

o dia acordou
o dia dormiu
alice acordou
mas Alice dormiu

Alice acordou
o fim do mundo chegou perto
assim como o final de todas as outras coisas
e alice dormiu.

no dia seguinte alice acordou
caiu por mais um tempo
percebendo o lento passar
de tudo
pela temperatura que caía
com o dia.

comeu
bebeu
se traduziu
e então Alice dormiu.


no dia seguinte
alice acordou e o dia estava ensolarado.

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